Edição 001
The Journal · Mensal
Sobre a habitação do tempo

do tempo
habitado

uma meditação sobre o que significa desenhar não divisões, mas as horas que nelas se passam — e sobre a razão pela qual o atelier recusa separar o traço da pedra.

Escrito a partir da Praça da Alegria
Inês Gavinho
Diretora Criativa · GAVINHO Atelier
Peça Um · O Ensaio

do tempo habitado

Um ensaio em três partes, sobre a disciplina da atenção e a paciência da pedra.

i.
O Primeiro Café

Uma casa começa, quase sempre, em conversa. não num desenho, não num briefing, não num moodboard pregado à parede do estúdio. começa numa mesa pequena e redonda — um café, um copo de água, dois estranhos que se hão-de tornar, nos anos que se seguem, qualquer coisa mais próxima de relações do que de clientes. aprendemos a desconfiar das reuniões que chegam já convencidas. o primeiro café é para escutar tanto os silêncios como as frases; para reparar na forma como se descreve a cozinha da mãe, na hesitação sobre a palavra família, na cadeira que se escolhe sem pensar. A arquitectura é biografia muito antes de ser geometria, e a biografia oferece-se mais generosamente quando nada foi ainda prometido.

O briefing. os nossos briefings escrevem-se à mão, no mesmo caderno, com a mesma tinta, pela mesma mão. tentou-se outros métodos — softwares, drives partilhadas, questionários estruturados que quantificam o desejo de luz natural numa escala de cinco pontos — e voltou-se sempre à tinta. a página resiste à certeza. obriga à frase lenta. aceita o riscado, que é em si uma forma de design. Um briefing não é uma lista de divisões; é a prosa de uma manhã futura, ditada por uma pessoa que ainda a não viveu.

não se desenham espaços. desenham-se as horas que neles passarão.

O sítio. há um momento, em cada encomenda, em que os sócios deixam o estúdio e vão ao terreno sozinhos. sem instrumentos, sem máquina fotográfica, sem fita métrica. vai-se de manhã se o edifício é orientado a poente, e ao entardecer se é a nascente, porque a luz que um edifício guarda é mais honesta à hora em que se esquece de si. senta-se no chão onde o chão há-de ser. escutam-se os ruídos que um futuro habitante há-de ouvir sem se aperceber. estas visitas não são romantismo. são reconhecimento. O sítio fala primeiro. o arquitecto, se for paciente, responde em segundo.

Os materiais. guarda-se no estúdio uma pequena biblioteca de pedras, madeiras e linhos — fragmentos cortados ao tamanho de uma mão, arrumados em gavetas planas de carvalho, etiquetados à mão a lápis. as etiquetas são a lápis porque as etiquetas a tinta mentem sobre a sua permanência; a pedra é mais velha do que a tinta. a biblioteca não é um catálogo mas um clima. convida-se os clientes a manusear cada fragmento, a sentir o peso do mármore contra a leveza da cortiça, o frio do azulejo contra a temperatura do pinho não encerado. Um material escolhido só pelo olho trairá o corpo que com ele convive.

O desenho. a linha, no nosso atelier, ainda é traçada pela pessoa que a verá construída. não há entrega entre quem imagina e quem mede. isto não é nostalgia do arquitecto heróico; é uma recusa da deformação que se dá quando uma ideia é traduzida através de três contratos antes de chegar a um canteiro. o desenho é uma promessa feita, e a promessa é cumprida pela mesma mão. quando a fundação é vazada em Caminha e o canteiro levanta os olhos da vala, encontra o olho da pessoa que desenhou a linha que ele tem na mão. a esta disciplina chamamos integridade da atenção.

O tempo. aceita-se um número limitado de projectos por ano. isto não é postura de marketing; é a única condição em que o trabalho pode permanecer nosso. a escassez é um valor, não uma restrição. Uma casa não é um produto. uma casa é uma conversa lenta que, se for escutada com cuidado, acaba por consentir ser habitada.

Há uma história a que se regressa, no estúdio, quando um projecto começa a derivar. é a história de um pequeno palácio em Alfama cujos donos nos tinham pedido, oito anos antes, uma remodelação. tinham-se cansado das excentricidades do edifício — a escada que não levava onde as escadas deviam levar, a cozinha com três portas e quatro janelas, o canto incontável em que peça nenhuma de mobiliário tinha alguma vez encaixado. queriam, diziam, uma casa limpa e moderna.

passou-se dois meses no briefing e produziu-se, ao fim, uma única página. lia-se: antes de substituirmos seja o que for, vivam nela durante uma estação. recusaram, depois concordaram. dormiram nos quartos. cozinharam na cozinha de três portas. sentaram-se no canto incontável às seis da tarde, quando a luz, afinal, desenhava uma pequena geometria de ouro no chão que nenhum arquitecto poderia ter inventado.

Ficaram com o canto. ficaram com a cozinha. a escada, ao fim, foi a única coisa que se mudou — e só porque vinha uma criança a caminho, e uma escada tem obrigações que um canto não tem. a lição, se houver alguma, é a lição que o edifício lhes vinha dizendo em silêncio há uma década. o nosso trabalho foi tornar a escuta possível.

antes de substituirmos seja o que for, vivam nela durante uma estação.
— De um briefing · Alfama, 2018
ii.
A Linha, a Pedra
Cormorant Garamond · Itálico 300
Um estudo em intervalo
Letra T · Pranchas I–IV
GAVINHO Atelier · 2026

uma letra, como um edifício, é sobretudo o ar que não ocupa.

Prova N.º 03
Desenhada à mão · Impressa em Lisboa
O tempo · O único material
que não se extrai
Peça Dois · As Notas

da gaveta das amostras

Três notas breves do atelier este mês — o que uma mão pegou, o que uma reunião quase esqueceu, o que uma parede não se calou a dizer.

i.
Um material · Nota

Um pedaço de vinhático que chegou tarde demais.

Um pequeno restolho de vinhático — tigerwood da Madeira — chegou esta semana de um carpinteiro do Funchal que o guardara, dizia, durante catorze anos, à espera de um projecto que o merecesse. o veio tem aquela luz que só a madeira dura e antiga tem: não um brilho, mas um calor interno lento, como ler à janela em Outubro. é demasiado pequeno para qualquer encomenda em curso. arrumou-se mesmo assim na gaveta das amostras. alguns materiais entram no estúdio não para serem prescritos mas para serem lembrados. a próxima casa pode começar deste fragmento.

— Inês · Lisboa, Abril
ii.
Uma reunião · Nota

A frase que não sobreviveu à segunda visita.

Numa primeira reunião o mês passado, um cliente disse: quero uma casa que se pareça com as casas que não posso comprar. ficou escrito. voltou-se três semanas depois com um esboço, e ele já estava embaraçado com a frase e pediu para a esquecer. não se esqueceu. é, pensa-se, a frase mais honesta que alguém disse este ano. uma casa que se pareça com saudade é uma encomenda diferente de uma casa que se pareça com uma revista. só uma delas pode ser construída. está-se agora a desenhar a outra.

— De um caderno · Março
iii.
Um sítio · Nota

A parede em Caminha que não vai ser rebocada.

Numa remodelação em Caminha decidiu-se, contra todos os conselhos, deixar uma única parede interior sem reboco. o granito por baixo é uma pedra com que a família convive há um século sem nunca a ter visto. quando o reboco caiu, o pedreiro chorou — não teatralmente, à maneira como se chora em casamentos, mas em silêncio, à maneira como se chora num regresso. a parede será iluminada apenas de lado, ao fim do dia. algumas superfícies acabam-se por se desnudarem. decidiu-se que esta é uma delas.

— Caminha, Março
Peça Três · A Conversa

carta à filha que agora desenha

Maria Gavinho — Fundadora, Diretora Criativa Emérita — sobre o que mudou, e o que se manteve, em trinta e cinco anos de prática.

The Journal abre com uma conversa entre mãe e filha. Sentou-se à mesa redonda num sábado de manhã, a mesma mesa em que o estúdio começou cada projecto desde 1990. O gravador não estava ligado. O que se segue foi reconstruído a partir de notas e de memória, editado para a página.

InêsI.G.

O que é que vocês sabiam, em 1990, que gostariam de não ter aprendido pela via difícil?

MariaM.G.

Que um projecto não é o desenho. O desenho é a parte fácil. Um projecto é tudo o que se passa entre o momento em que um cliente diz quero uma casa e o momento, seis anos depois, em que já não dá pelas maçanetas das portas. O desenho é uma tarde disso. Não sabíamos, ao princípio, que íamos passar trinta e cinco anos no resto.

E — isto é mais difícil de dizer — que o estúdio não é um sítio. O estúdio é uma forma de estar atento. Mudámos de escritório três vezes. O estúdio veio sempre connosco, numa gaveta única de lápis. Se se perde a gaveta, o edifício não te salva.

Inês

O que é que hoje não permitirias que permitiste então?

Maria

Não deixaria um cliente prescrever um material que eu não tivesse pegado. Deixou-se, nos primeiros anos — confia-se no catálogo, confia-se no fornecedor, confia-se na fotografia. O catálogo é uma luz que favorece. Tivemos uma cozinha, em 1996, em que a pedra chegou de cor diferente da que tínhamos combinado; não muito, mas o suficiente para o quarto inteiro mudar. O cliente foi gentil. Nós não fomos gentis connosco. Foi depois disso que se fez a gaveta das amostras. Foi, de certa forma, a peça de mobiliário mais cara que o estúdio alguma vez fez, porque tudo o que veio depois passou a ser julgado a partir de dentro dela.

Inês

Tu e o pai mantiveram o estúdio durante três décadas antes de eu desenhar nele uma linha. O que é diferente agora que sou eu a desenhar?

Maria

És mais lenta. Digo isto como o maior elogio que sabemos dar. O teu pai e eu fomos mais rápidos porque tínhamos de ser — éramos menos, o trabalho era menos, precisávamos de cada encomenda. Tu podes dar-te ao luxo da paciência porque construímos as condições para isso. Um estúdio na sua terceira década deve à geração seguinte o direito de demorar o seu tempo. Devemos-te o ano que não tivemos.

O que se mantém é a mesa. O primeiro café. O caderno. A gaveta. Não é nostalgia. É infraestrutura. O que sobreviveu trinta e cinco anos no estúdio mereceu sobreviver mais quarenta.

Inês

Uma última pergunta. Se The Journal é o estúdio a escrever aquilo que o trabalho lhe vai ensinando, o que gostarias que dissesse a primeira edição?

Maria

Que se trata o tempo como se trata a pedra. Que nem um nem outra nos pertencem. Que a coisa mais honesta que um estúdio pode fazer, após trinta e cinco anos, é admitir que o trabalho ainda o ensina. E — escreve isto — que a filha que agora desenha é a mesma filha que adormecia debaixo desta mesa enquanto nós discutíamos com o canteiro sobre uma janela. A janela ainda lá está. Ela também.

Trata-se o tempo como se trata a pedra. Nem um nem outra nos pertencem.

— Maria Gavinho · Lisboa, Abril 2026
Uma rúbrica recorrente · The Studio Discipline

as coisas que, na nossa prática,
decidimos não fazer

Uma coluna mensal. Seis recusas, extraídas desta edição, que o estúdio mantém em silêncio e de forma consistente. A lista mudará com a estação; a disciplina não.

Seis recusas · Abril 2026
n.º 001 de uma série em curso
N° 01 · Recusa

não separamos o desenho do edifício.

a pessoa que desenha a primeira linha é a mesma pessoa que vê a última pedra ser colocada. a disciplina da autoria é a disciplina da consequência.

N° 02 · Recusa

não acabamos um quarto antes de termos dormido nele.

um quarto não está acabado quando as superfícies estão. está acabado quando o corpo que o vai habitar relatou de volta a manhã, o entardecer, e a hora lenta depois do almoço.

N° 03 · Recusa

não fotografamos o nosso trabalho à luz rasante.

os edifícios devem ser vistos à luz em que vivem, não à luz que os favorece. fotografamos ao meio-dia, em Novembro, quando a sombra do cipreste é honesta.

N° 04 · Recusa

não aceitamos mais projectos do que o estúdio consegue carregar.

a escassez não é estratégia de oferta. é a única condição em que a atenção permanece indivisa. recusa-se um ano antes de se diluir uma estação.

N° 05 · Recusa

não prescrevemos um material que não tenhamos pegado.

a gaveta das amostras é mais velha do que o estúdio. cada fragmento foi escolhido por uma mão que a ela regressa. não se acredita na superfície fotografada.

N° 06 · Recusa

não chamamos final à entrega das chaves.

a entrega é meio do caminho. regressa-se aos seis meses, ao ano, aos cinco. um edifício só está acabado quando as pessoas que vivem nele deixam de o ver, e isso leva uma estação, pelo menos.

Fim da Edição 001 · Abril 2026

trata-se o tempo com o mesmo cuidado com que se trata a pedra, a madeira e a luz. os espaços sobrevivem-nos — que momentos guardará o seu?

Escrito por
Inês Gavinho
Diretora Criativa
Em conversa com
Maria Gavinho
Fundadora
Composto em
Cormorant Garamond
Quattrocento Sans
Publicado em
Praça da Alegria
Lisboa, Abril 2026
Em preparação · Edição 002

Da pedra, devagar

Um ensaio sobre a paciência do granito, três notas de uma pedreira em Vila Nova, e uma conversa com um canteiro que trabalha com o estúdio desde 1992. Maio 2026.

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