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Sobre o modelo

A fenda que
não devia existir.

Sobre o problema estrutural de separar desenho de construção — e sobre a razão pela qual se voltou a unir a cadeia.

Por Inês Gavinho · 12 Abril 2026

A indústria da arquitectura tem um problema estrutural, e toda a gente concordou em fingir que é normal. Um cliente contrata um arquitecto. O arquitecto desenha. Depois um empreiteiro constrói. Duas empresas separadas, duas agendas separadas, duas definições separadas daquilo a que se chama bom. O arquitecto quer preservar a visão. O empreiteiro quer entregar a obra dentro do prazo e do orçamento. Algures, no espaço entre os dois, o projecto sofre em silêncio.

Detalhes são engenheirados para fora. Materiais são substituídos. A fenda entre o que foi desenhado e o que é construído alarga-se — devagar, invisivelmente, de maneiras que o cliente muitas vezes só repara quando já vive com o resultado. Por essa altura, o desenho está numa pasta, o empreiteiro está noutra obra, e o arquitecto disse educadamente não foi isso que se prescreveu três vezes em três emails que nada mudaram.

Isto não é falha de indivíduos. Os arquitectos não são preguiçosos. Os empreiteiros não são desleixados. Os clientes não são ingénuos. É uma falha do modelo — um modelo que a indústria, por razões de conforto e transferência de risco, decidiu não questionar.

Quando se é dono da cadeia inteira, não se pode culpar mais ninguém.

Na GAVINHO fez-se uma escolha diferente. A nossa construtora constrói apenas os nossos projectos. O mesmo atelier que traça a linha é responsável pela pedra que a vai assentar. Não há fenda em que se caia, porque não há entrega.

O resultado não é, em primeiro lugar, melhor qualidade — embora também o seja. O resultado é um tipo diferente de responsabilidade. Quando se é dono da cadeia inteira, não se pode culpar mais ninguém. A pressão disto é desconfortável. É também, viemos a acreditar, a única condição em que o trabalho pode permanecer nosso.

A indústria separa desenho de construção pela facilidade de gestão. Mantém-se os dois juntos porque importa mais o resultado do que a conveniência.