The Journal · A Monthly
Sobre a confusão entre modernismo formal e modernismo programático

contra a casa sem divisões

um ensaio sobre por que defender a divisão programática é, hoje, a posição mais radical disponível. sobre Arendt e Alexander, sobre o que Le Corbusier propôs duas vezes, e sobre os contra-exemplos que sempre existiram.

Escrito da Praça da Alegria
Inês Gavinho
Diretora Criativa · GAVINHO Atelier

A casa sem divisões não é mais livre.
É apenas mais pobre em tempo.

i.

A confusão fundadora

Le Corbusier propôs duas coisas em simultâneo, e a história tratou-as como uma só. Foi um erro. Talvez o erro fundador da arquitectura moderna doméstica.

A primeira proposta era formal. Cinco pontos: pilotis, terraço-jardim, planta livre, janela em fita, fachada livre. Uma libertação técnica e visual — o muro deixou de ser portante, a luz entrou, a expressão simplificou-se. Esta foi a grande conquista do modernismo, e nada do que aqui se escreve a contesta. Pelo contrário: o sistema Dom-Ino é a infra-estrutura silenciosa de quase toda a arquitectura honesta feita desde 1914.

A segunda proposta era programática. Plan libre, dissolução das funções, casa como manifesto de uma nova forma de viver. Cozinhas que são salas. Quartos que são suítes-escritórios. Áreas comuns hibridizadas. Esta foi tratada pela história como continuação natural da primeira. Não é. A primeira é técnica. A segunda é ideológica. E enquanto a primeira venceu — bem — a segunda continua, cem anos depois, a confundir o que é arquitectura com o que é manifesto.

A GAVINHO mantém com gratidão o modernismo formal. Contesta, frontalmente, o modernismo programático.

ii.

O que cada divisão guarda

A cozinha não guarda apenas a actividade de cozinhar. Guarda o tempo da preparação — o tempo que antecede a chegada, o tempo invisível, o tempo do gesto repetido. É um tempo que precisa de bastidor. Que precisa de poder fechar a porta. Que precisa de não estar em palco.

A sala guarda o tempo da presença. O tempo da conversa, da pausa, da pessoa que entra. É um tempo que precisa de palco. Que precisa de estar disponível. Que precisa de uma soleira clara entre quem mora e quem visita.

O quarto guarda o tempo do recolhimento. O tempo em que o corpo deixa de ser social e volta a ser corpo. O tempo que precisa, literalmente, de uma porta.

Cada uma destas divisões aloja um tempo que não é o tempo das outras. Dissolvê-las numa única «área comum fluida» não é libertação. É colapso temporal — um único tempo achatado, indistinto, em que ninguém prepara em paz, ninguém recebe com soleira, ninguém se recolhe com porta. Tudo acontece, mal, em frente de toda a gente.

iii.

Há nome filosófico para isto

Em A Condição Humana (1958), Hannah Arendt distinguiu três esferas — pública, social, privada — e argumentou que a confusão entre elas era a tragédia política da modernidade. A casa burguesa do século XIX, com as suas separações rituais, era a tradução doméstica dessa distinção. O modernismo programático demoliu-a. O que Arendt mostrava — e que a arquitectura, distraída pela sua própria estética, ignorou — é que sem essa separação, nenhuma das esferas consegue respirar.

Em A Pattern Language (1977), Christopher Alexander catalogou os padrões espaciais que sustentam a vida humana através das culturas e dos séculos. A maioria dos seus duzentos e cinquenta e três padrões assume separação programática — não como convenção burguesa, mas como observação empírica de como o corpo e a vida em comum se organizam no espaço. Alexander não é conservador. É etnógrafo.

É nesta tradição que se inscreve a GAVINHO. Não a tradição da casa eduardiana de Léon Krier — essa é uma outra coisa, e não é o que aqui se defende. A tradição que aqui se invoca é mais antiga, mais sóbria, mais empírica: a que observa o que sempre foi verdade sobre como os humanos habitam, e recusa fingir o contrário porque o século XX assim quis.

iv.

Os contra-exemplos sempre existiram

Há toda uma arquitectura moderna que rejeitou o modernismo programático sem rejeitar o modernismo formal. SANAA, na Moriyama House (Tóquio, 2005), traduziu a separação programática em pavilhões independentes — uma divisão tão radical que cada função tem o seu próprio volume isolado, com o jardim a fazer de corredor. Linguagem absolutamente moderna. Programa absolutamente clássico.

Eduardo Souto de Moura faz o mesmo em quase toda a obra residencial. A Casa de Moledo. A Casa do Gerês. As paredes são limpas, os materiais são técnicos, a luz é cuidada — e cada divisão é uma divisão. Nada é «fluido». Nada é «área comum hibridizada». A cozinha é cozinha, a sala é sala, e ninguém se sente, dentro destas casas, a viver no século XIX. Vive-se no presente. Mas num presente que respeita o que no programa da casa é constante.

O modernismo formal sem dissolução programática não é só possível. É a tradição da arquitectura honesta dos últimos sessenta anos. É o que a história escreveu mal — privilegiando os manifestos sobre os exemplos — mas que sempre lá esteve.

v.

A política do programa

É aqui que a questão deixa de ser estética e passa a ser política.

O open plan, lido com cuidado, é a posição neoliberal levada à arquitectura. Tudo é flexível. Tudo é multi-uso. Tudo se reconfigura à conveniência da actividade. Não há cantos. Não há divisões. Não há esferas. Há apenas espaço produtivo permanentemente disponível.

O open plan é a posição neoliberal
levada à arquitectura.

A defesa da divisão é a defesa do não-produtivo. Do tempo que não é optimizável. Da esfera que recusa ser convertida noutra. É uma posição contra a fungibilidade total da vida doméstica — contra a casa como activo permanentemente reciclável, contra o quarto como escritório, contra a cozinha como sala de jantar como sala de estar.

Lida assim, esta posição não é conservadora. É exactamente o contrário. É a posição que recusa entregar a casa à mesma lógica que já entregou o trabalho, a atenção, e o tempo livre.

vi.

Coda

A GAVINHO faz casas em que a cozinha é cozinha, a sala é sala, e o quarto é quarto. Fá-lo com sistema construtivo contemporâneo, com infra-estrutura técnica avançada, com materialidade do presente. Mas o programa — o programa arquetípico, constante, observado em todas as culturas e em todos os séculos — esse não muda. Não porque não possa. Porque não deve.

A casa sem divisões é uma casa onde todo o tempo se torna igual a todo o tempo. Onde nada tem o seu lugar, e portanto nada tem o seu peso. É uma casa eficiente, é uma casa fotogénica, é uma casa moderna — e é, no sentido mais profundo da palavra, uma casa pobre. Pobre em tempo. Pobre em distinções. Pobre em esferas.

Há outra casa possível. Não a do passado. Uma casa que usa as conquistas formais do século XX para servir um programa que é mais velho do que qualquer movimento — e que vai ser mais velho do que todos eles.

Disto, fazemos disciplina. Disto, fazemos atelier.

Inês Gavinho
Diretora Criativa · GAVINHO Atelier
Genealogia
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