Os movimentos mudaram tudo o que se parecia.
Não mudaram nada do que se vive.
A pergunta
Pergunto, e a pergunta tem uma armadilha.
Algum movimento arquitectónico, em toda a sua história, mudou a forma de habitar ou a função dos objectos da casa?
A pergunta parece ingénua. A resposta intuitiva é «claro que sim» — e quem responde assim já caiu nela. Porque há um século que o discurso da arquitectura constrói a sua autoridade sobre a premissa de que os movimentos mudam não só como a casa se parece, mas como nela se vive. Le Corbusier prometia a «máquina de habitar». Mies prometia o «menos é mais» como nova relação com o mundo. O movimento moderno prometia libertar a casa da convenção. Tudo isto se vendeu como inovação funcional.
Mas a resposta honesta é: não. Nenhum movimento mudou nunca a função.
Esta é a pergunta que vale a pena fazer. E a sua resposta é o ponto onde começa a GAVINHO.
O que os movimentos mudaram
O que mudou foi a linguagem.
Le Corbusier mudou a forma como uma casa se parece. Mies van der Rohe mudou a relação visual entre interior e exterior. O movimento moderno reduziu a ornamentação a quase nada. O pós-moderno trouxe-a de volta como citação irónica. O desconstrutivismo fragmentou a forma; o paramétrico curvou-a; o minimalismo limpou-a até ao mínimo legível.
Tudo isto é vocabulário. Aparência. Envelope.
E é importante reconhecer que estas mudanças foram reais. Não falo de inovações cosméticas. Falo da forma como a luz entra numa divisão, da relação entre laje e fachada, da liberdade que a planta ganhou quando o muro deixou de ser portante. Estas conquistas formais existem, têm valor, são património disciplinar.
Mas o seu domínio é exclusivamente formal. Tudo o que os movimentos do século XX e XXI fizeram, fizeram ao nível do como — como se constrói, como se exprime, como se vê. Não ao nível do quê — do que se faz, do que se habita, do que acontece dentro daquelas paredes.
Esta distinção é tão antiga quanto a própria disciplina e, mesmo assim, sistematicamente colapsada. Os movimentos que se anunciaram como revoluções programáticas eram revoluções formais que se mascararam de programáticas. O manifesto era o disfarce.
O que os movimentos não mudaram
A função.
Continuamos a dormir deitados. Continuamos a comer sentados. Continuamos a defecar numa sanita. Continuamos a tomar banho de pé, ou deitados, sempre nus, sempre com água. A criança continua a precisar de proximidade da mãe nos primeiros anos. O adolescente continua a precisar de uma porta que feche. O adulto continua a precisar de privacidade. Os corpos continuam a procurar-se à volta de uma superfície horizontal para comer em conjunto. Continuamos a fazer distinção entre o espaço onde recebemos e o espaço onde vivemos.
Nenhum movimento mudou nada disto. Nem podia.
Porque estas não são convenções culturais. São condições. Condições do corpo humano, da estrutura básica da família, da forma como o parentesco se materializa, da hospitalidade, do sono, da necessidade de retiro. São anteriores à arquitectura, e vão ser posteriores a ela.
E os movimentos que tentaram fingir o contrário só conseguiram degradar o que diziam estar a libertar.
A cozinha «aberta» não mudou o acto de cozinhar — apenas pôs em palco o que antes era bastidor. A sala «fluida» não mudou o acto de receber — apenas confundiu os limites entre onde se recebe e onde se vive. O quarto-escritório não mudou o acto de dormir nem o acto de trabalhar — apenas degradou os dois. O plan libre aplicado à casa não libertou a vida doméstica; libertou apenas a planta arquitectónica da obrigação de a servir.
Os movimentos mudaram o como se parece.
Fingiram que mudavam o como se vive.
Quando o discurso da inovação formal se confundiu com inovação funcional, o resultado foi previsível: um século de casas em que o programa arquetípico — esse, sim, real — continua presente, mas mal servido. Mal-servido pela parede inexistente. Mal-servido pela cozinha em palco. Mal-servido pelo quarto sem porta. Mal-servido por uma disciplina ocupada a fazer manifesto.
A retórica e o seu custo
A confusão entre inovação formal e inovação funcional não foi acidente. Foi estratégia retórica.
Um arquitecto que diga «mudei a forma da fachada» é considerado um decorador. Um arquitecto que diga «mudei a forma como se vive» é considerado um filósofo. A profissão precisou, durante um século, de se posicionar como o segundo para se distinguir do primeiro — e fê-lo retoricamente, sem que a realidade interna das casas mudasse.
O custo desta retórica é arquitectura mal pensada. Quem desenha como se estivesse a inventar a vida humana não tem cuidado com a vida humana que já existe — esta que dorme deitada, come sentada, precisa de portas. Quem assume que está a mudar o programa não estuda o programa. Quem assume que cada projecto é manifesto faz manifesto — e esquece-se de fazer casa.
E foi exactamente isto que aconteceu. Cem anos de casas que se parecem com a sua época, sim, mas que servem o corpo humano pior do que casas vernaculares de qualquer cultura serviram durante milénios.
A excepção infraestrutural
Há uma excepção a isto tudo, e vale a pena nomeá-la para que o argumento não pareça mais simples do que é.
Houve mudanças reais nos últimos cento e cinquenta anos. Mas foram infraestruturais, não programáticas.
A canalização interior mudou onde a sanita pode estar — não mudou o que a sanita faz. A electricidade mudou quando a casa está acesa — não mudou onde se vive. O aquecimento central mudou que latitudes são habitáveis em conforto — não mudou o que se faz dentro delas. O ar condicionado mudou que climas se podem habitar — não alterou o ritmo diário do corpo. A internet mudou que tipo de trabalho pode acontecer em casa — não mudou o acto de trabalhar.
Esta distinção é crucial.
As infraestruturas mudaram. O programa não.
E é aqui que se localiza o trabalho honesto da arquitectura contemporânea. Não em mudar o que não pode ser mudado — a função, o arquétipo, o corpo. Mas em melhorar tudo o que de facto melhorou: a precisão técnica, o conforto térmico, o controlo acústico, a sustentabilidade, a integração de tecnologia invisível, a qualidade da matéria, a inteligência do detalhe.
A inovação real, no século XX e XXI, foi do envelope para dentro — para a infraestrutura. Não do envelope para o programa.
A fórmula
É exactamente este o sítio em que a GAVINHO opera.
Não fazemos casas «contemporâneas» no sentido em que essa palavra ficou colonizada — casas que tentam reinventar a vida doméstica e, no processo, a deformam. Fazemos casas que cumprem o arquétipo doméstico, observado em todas as culturas e em todos os séculos, com a tecnologia, a precisão técnica e a materialidade do presente.
A fórmula é simples e exigente: arquétipo doméstico (constante) + envelope contemporâneo (material, técnica, infraestrutura, precisão).
Constante o programa. Constante a função. Constante a separação entre o tempo da preparação, o tempo da presença e o tempo do recolhimento. Constante a porta, a soleira, a divisão.
Variável tudo o que de facto evoluiu: a forma como uma parede se constrói, a forma como a luz é controlada, a forma como o som é absorvido, a forma como a temperatura é mantida, a forma como a tecnologia desaparece da vista mas serve quem ali vive.
Esta é a única inovação honesta disponível à arquitectura doméstica hoje. Não é a do manifesto. É a da disciplina.
Coda
Algum movimento mudou a forma de habitar ou a função dos objectos da casa?
Não.
A resposta honesta a esta pergunta não é uma curiosidade histórica. É a fundação da GAVINHO. É o que separa o trabalho que fazemos do trabalho que se apresenta hoje como contemporâneo. É o critério pelo qual escolhemos o que cabe numa casa, o que não cabe, o que serve o corpo humano que vai habitá-la, e o que apenas serve a fotografia.
A casa é mais antiga do que qualquer movimento.
E vai ser mais antiga do que todos eles.